20.8.04

a vida não faz sentido algum

formou-se o tumulto. era em frente ao mercadinho da rua principal. um homem desafiando um cachorro grande, branco malhado de marrom e preto. ele tacava pedras no bicho, dava pulo pra frente, pra trás, soltava gritinhos pra espantar. mas o cachorro nem mexia. e quanto mais ele ficava ali parado, mais o homem se desesperava, suava, pulava que nem macaco. e chegou mulher, homem, criança, vendedor de enciclopédia. juntou o pessoal da banca de jornal, do mercadinho, do ponto de ônibus, da loja de flores. ninguém sabia explicar direito o porquê do quiprocó, mas ninguém estava realmente muito interessado nisso. a cena era divertida, e isso sim era importante. teve uma hora que o povo prendeu a respiração: o cachorro levantou, o rabo em riste, espantou uma mosca que rondava o focinho. todo mundo deu um passo pra trás: é agora que o bicho desconta a injúria. ele vai atacar! mas nada.voltou a se acomodar perto do poste, como se o caso não fosse com ele. como se fosse mais um espectador. já fazia mais de 20 minutos aquele circo e o homem, esbaforido, arrefecia. como último golpe, tacou no cachorro, com força, um pau que encontrou perto do meio-fio. surpreendendo a audiência, o animal reagiu. quando o pau bateu direto na sua testa o bicho ficou todo duro, fez um barulho esquisito e tombou pro lado. na confusão, ninguém tinha reparado o prego na ponta do pau. mas agora dava pra ver claramente que o pau estava fincado na testa do cachorro branco, marrom e preto. o povo ficou um instante em silêncio. o bicho estava morrendo. quieto, da mesma maneira como aguentara toda a provocação. aquilo não fazia sentido no meio daquela tarde de sol. foi nessa hora que, no final da rua, apontou o carro do gás, tocando sirene, com alto-falante, fazendo algazarra. a moça do mercadinho colocou a mão na cabeça, lembrou que tinha que comprar duas botijas, se apertou entre o pessoal até chegar a uma porta e se embrenhar por ela. e, ao exemplo dela, muitas donas-de-casa zelosas partiram para seus afazeres, despertando daquele momento nonsense. o povaréu foi dispersando. o homem mesmo que atirara o pau no cachorro já tinha escapulido pela calçada afora, rumo ao parque da cidade. só o cachorro grande, branco, marrom e preto, jazia, sem sentido, perto do poste.