6.9.04

dormir, sonhar

hoje, uma conversa com o bonna me fez pensar em como faz tempo que não tenho um sonho memorável. é, porque dizem que a gente sonha muitas coisas todas as noites. mas eu só me lembro de alguns sonhos, geralmente os mais sem sentido. pois bem, faz tempo que não acordo com um desses dando voltinhas na minha cabeça. deu saudade. porque eu gosto muito de sonhar e pensar nas situações estranhas e bizarras criadas neles. como, exempo, ir à praia com todo o elenco de 'sol de verão'. e voar? que delícia... pena que sonhos, sonhos são, como já diria o chico.


negras nuvens
mordes meu ombro em plena turbulência
aeromoça nervosa pede calma
aliso teus seios e toco
exaltado coração
então despes a luva para eu ler-te a mão
e não tem linhas tua palma

sei que é sonho
incomodado estou, num corpo estranho
com governantes da américa latina
notando meu olhar ardente
em longínqua direção
julgam todos que avisto alguma salvação
mas não, é a ti que vejo na colina

qual esquina dobrei às cegas
e caí no cairo, ou lima, ou calcutá
que língua é essa em que despejo pragas
e a muralha ecoa

em lisboa
faz algazarra a malta em meu castelo
pálidos economistas pedem calma
conduzo tua lisa mão
por uma escada espiral
e no alto da torre exibo-te o varal
onde balança ao léu minh’alma

em macau, maputo, meca, bogotá
que sonho é esse de que não se sai
e em que se vai trocando as pernas
e se cai e se levanta noutro sonho


sei que é sonho
não porque da varanda atiro pérolas
e a legião de famintos se engalfinha
não porque voa nosso jato
roçando catedrais
mas porque na verdade não me queres mais
aliás, nunca na vida foste minha
[sonhos, sonhos são - chico buarque]