23.9.04

teia

a imagem é a de alguém em fuga, correndo alucinadamente, tropeçando, caindo, levantando desorientado, voltando a correr sem se dar conta do caminho, das árvores, das folhas secas no chão, das raízes das árvores, sem destino, sem saber do que está fugindo. a única coisa certá é que precisa não estar.
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a imagem é a de alguém que acorda e se vê preso num tanque hermeticamente fechado, procura uma brecha, um vão, uma saída. tenta empurrar as paredes, afastar, abrir um buraco, mas nada. ele não sabe porque está ali, como foi parar nesse pesadelo, mas sabe que a vida assim é impraticável.

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a imagem é a de alguém que abre os olhos e não encontra nada: o que tem forma, peso, conteúdo, cor, cheiro, densidade, desapareceu. o mundo virou um cenário unidimensional, que fica passando, como uma esteira rolante, na parede, atrás. ele está de pé no nada, multidimensional, não se encaixa na paisagem.

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a imagem é a de quem acabou de perder o bonde e não se dá conta de que não existem mais bondes.