entrou no taxi e era umas nove e meia da noite. tarde para sair do trabalho. mas, quem se importava? essa era a milésima vez que ele fazia hora extra. não nesse trabalho, mas em todos. parecia uma sina, a sina da hora extra. a verdade é que trabalhava melhor à noite, na ausência dos trins dos telefones fixos e celulares. no silêncio das salas sem funcionários, no avesso da luminosidade do dia. e daí, hora extra. mas enquanto sacolejava dentro do taxi ele ia pensando era na marta. nos olhos fundos da marta. naquelas olheiras respeitáveis e sérias da marta, daquelas de quem vara a madrugada em claro. sentia um pouco de inveja dessa cara que ela tinha de cansada, de resignada com sua sorte triste de trabalhar demais e perder a vida. ele, por mais horas extras que fizesse, estava sempre novo no dia seguinte. com a cara tão boa que, quando dizia 'trabalhei até as 11 ontem', olhavam pra ele com cara de 'a-ham...' afinal, de que valia trabalhar tanto, passar tantas horas dedicado ao ofício, se, no final das contas, ninguém se compadecia, ninguém oferecia solidariedade, ou, ao menos, se dispunha a dar uma brecha para falar mal do patrão ou das injustiças que sofre o proletário nessa vida. nada. mas marta, com sua cara de vaca indo pro matadouro, sua expressão de santa expiando pecados, essa sim, recebia de todos olhares solidários e pequenos favores: 'ó, marta, quer que eu te faça um cafezinho?', 'pobre marta, precisa descansar mais!'... e não bastasse as olheiras formidáveis de marta, ainda havia o mistério. ele, que ficava até tarde no escritório todos os dias, nunca via ela por lá. na certa levava trabalho pra casa. tinha toda a pinta! aquelas pastas, aquela pilha de papel que ela carrega pra todo lado. certamente... e perdido nessas conjecturas, nem viu que já estava chegando em casa. o taxi parou em frente ao poste já meio combalido pelo tempo e por umas barbeiragens dos moleques da rua. ele pagou, pediu a nota - no nome da firma, por favor - desceu do carro e meteu-se portaria adentro do prédio onde morava. entrou em casa, largou a pasta, ligou a tv. comeu um pão com ovo, tomou um copo de leite, vestiu o pijama, esticou os lençóis e pá! um sono mortal invadiu todos os cômodos da casa. era impossível não se render. e, sentado na cama, ele chorou. se ao menos eu pudesse ter as olheiras de marta!
psicodog
cachorro mutante, cigano e bipolar. não alimentar. nem dar ouvidos.

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