3.12.04

entrou no taxi e era umas nove e meia da noite. tarde para sair do trabalho. mas, quem se importava? essa era a milésima vez que ele fazia hora extra. não nesse trabalho, mas em todos. parecia uma sina, a sina da hora extra. a verdade é que trabalhava melhor à noite, na ausência dos trins dos telefones fixos e celulares. no silêncio das salas sem funcionários, no avesso da luminosidade do dia. e daí, hora extra. mas enquanto sacolejava dentro do taxi ele ia pensando era na marta. nos olhos fundos da marta. naquelas olheiras respeitáveis e sérias da marta, daquelas de quem vara a madrugada em claro. sentia um pouco de inveja dessa cara que ela tinha de cansada, de resignada com sua sorte triste de trabalhar demais e perder a vida. ele, por mais horas extras que fizesse, estava sempre novo no dia seguinte. com a cara tão boa que, quando dizia 'trabalhei até as 11 ontem', olhavam pra ele com cara de 'a-ham...' afinal, de que valia trabalhar tanto, passar tantas horas dedicado ao ofício, se, no final das contas, ninguém se compadecia, ninguém oferecia solidariedade, ou, ao menos, se dispunha a dar uma brecha para falar mal do patrão ou das injustiças que sofre o proletário nessa vida. nada. mas marta, com sua cara de vaca indo pro matadouro, sua expressão de santa expiando pecados, essa sim, recebia de todos olhares solidários e pequenos favores: 'ó, marta, quer que eu te faça um cafezinho?', 'pobre marta, precisa descansar mais!'... e não bastasse as olheiras formidáveis de marta, ainda havia o mistério. ele, que ficava até tarde no escritório todos os dias, nunca via ela por lá. na certa levava trabalho pra casa. tinha toda a pinta! aquelas pastas, aquela pilha de papel que ela carrega pra todo lado. certamente... e perdido nessas conjecturas, nem viu que já estava chegando em casa. o taxi parou em frente ao poste já meio combalido pelo tempo e por umas barbeiragens dos moleques da rua. ele pagou, pediu a nota - no nome da firma, por favor - desceu do carro e meteu-se portaria adentro do prédio onde morava. entrou em casa, largou a pasta, ligou a tv. comeu um pão com ovo, tomou um copo de leite, vestiu o pijama, esticou os lençóis e pá! um sono mortal invadiu todos os cômodos da casa. era impossível não se render. e, sentado na cama, ele chorou. se ao menos eu pudesse ter as olheiras de marta!