3.2.05

tipos

mariana

ela era de peixes e gostava de músicas tristes. sentava-se todo fim de tarde na areia da praia, de frente pro mar, e ficava lá, energizando o espírito, de olhos fechados. Usava roupas simples, confortáveis, nada que se pudesse classificar como sexy ou que tivesse relação com o que suas amigas usavam. Aliás, ela mesma não tinha muito a ver com aquelas amigas, mas o que se havia de fazer? Naturalmente, esperava o príncipe encantado. Gostava de chuva fina e de flores amarelas e rosas, mas não podia cheirar muito de perto. Alérgica. Vivia com os pais e sonhava com o dia em que teria seu espaço, que dividiria apenas com seu gato pituco e sua tartaruga vaninha. Eventualmente pensava em ter uma carreira, mas não com afinco. Nesses casos, acreditava em destino. Por isso, toda semana, invariavelmente às sextas, comprava um bilhete de loteria. Quem sabe a sorte chega, e num final de semana! que receber notícia boa no final de semana é alegria em dobro! Um tantinho desastrada, tinha sempre um dedo do pé roxo ou uma unha lascada. Colecionava pedras, embalagens vazias, parafusos, palitos de picolé, papéis de carta, moedas e selos, entre outras inutilidades. Nunca teve coragem de jogar nada fora. “que museu”, dizia sua mãe quando entrava no quarto, de manhã, pra deixar a roupa passada em cima da poltrona que ficava perto da cortina. Mas ela não ligava, era o seu museu. O museu das coisas que ela viu, tocou, escolheu. Fazia planos para viajar pro exterior assim que surgisse uma boa oportunidade, que podia ser uma passagem aérea barata, um convite, uma febre, um surto. Num dia de chuva fina saiu de casa e apanhou um resfriado. Pouco tempo depois, a tosse apertou e ela caiu de cama. As visitas trouxeram flores e, como sabem, a situação só podia piorar. E aconteceu que, igual em música triste, em alguns dias, discretamente, sem cenas de desespero ou pesar exagerado, a história acabou-se.