14.2.05

tipos

joão

"Não significa então nada, para vós, ser a festa de alguém?"
Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso


joão não vê mais graça em fetuccini com molho branco, não quer saber de polir o fusca aos sábados, nem cerveja gelada com os amigos no final do dia ele quer mais. quando o telefone ou a campainha tocam, diz que está com dor de barriga, dor de cabeça, dor nas costas, espinhela caída e recusa. chegou aos 50 de repente, sem perceber. quando parou pra calcular o saldo da jornada se deu conta de que estava ficando velho e de que isso não fazia sentido nenhum. de uma hora pra outra, percebeu que seus hábitos, seu vocabulário, sua perspectiva de vida tinham envelhecido também. e a vida que levava lhe pareceu uma roupa curta e apertada, na qual ele não mais cabia. sentiu-se ridículo, envergonhado, ultrajado. estavam lhe pregando uma peça. logo ele, o aluno mais esperto da turma de 79, que fazia as contas mais complicadas num piscar de olhos e sem usar calculadora, que nunca precisava consultar mapas ou pedir informação na estrada. o pensamento de joão ia e voltava nesse labirinto, inutilmente. não era possível, meu deus, que não existisse uma saída pra isso. deu pra caminhar sem rumo, sozinho, pela cidade. de vez em quando sentava numa praça, num bar, e ficava ali, cismando, horas. num dia desses, já fazia horas que estava sentado naquele bar, joão sentia-se pesado. como se seus pés estivessem presos ao chão por ímãs e seu corpo envolto em papel filme, desses de embalar bandeja de mortadela e mussarela em supermercado. cansado, impotente, com preguiça. não adiantava revolta, não valia a revanche. estava feito, ficara velho e, a partir de agora, o mundo pareceria um tantinho mais desbotado a cada dia. precisava de um chopp gelado pra lidar com o inexorável daquela idéia. ajeitou-se na cadeira, tomou um gole e fechou os olhos lentamente. respirou fundo como se pudesse tragar a resignação. dos seus pulmões ela se espalharia por todo o corpo, feito uma infecção. quieto, a respiração cada vez mais lenta, ia sumindo dali, do mundo, se escondendo lá no fundo de si mesmo. os sons foram diminuindo, o ar ficando mais leve, até que ele sentiu medo de abrir os olhos e não encontrar mais nada. e se deus tivesse concedido a ele a graça de uma outra vida, outra chance. mas e a vida, sendo outra, seria melhor? o medo aumentou e ele não queria abrir os olhos para encarar o mundo, fosse o velho, fosse um outro. pensou que se ficasse ali, sentado, os olhos cerrados, até o insustentável, poderia se salvar. e o insustentável veio, trazendo joão de volta à tona. foi um toque sutil, um esbarrão de leve, nem durou dois segundos. ele abriu os olhos e pôde ver afastar-se, na direção do banheiro, uma cadeira de rodas. por mais trivial que parecesse, essa imagem consumia toda a sua atenção. os cabelos eram cacheados, alguns fios esvoaçando sob o foco do ventilador. joão levantou-se, deixou uma nota de 50 sobre a mesa e caminhou. parou em frente à cadeira, desvendando o mistério daquele rosto. ela sorriu. ele sorriu. oi. oi, sou joão. marcela. e a noite virou música, a festa de joão estava apenas começando.