21.2.05

tipos

marcela

era uma mania antiga: gostava de ficar uns cinco minutos de olhos fechados antes de ‘acordar’ oficialmente. ficava deitada em sua cama, pensando na vida, deixando o novo dia entrar primeiro pela pele, pelo ouvido e pelo nariz, adivinhando se fazia calor ou frio, se chovia ou não, se era cedo ou tarde. naquele dia sentiu também uma pressão esquisita na mão direita e, num flash, lembrou da queda. foi um escorregão e tanto e ela tinha batido direto com a mão no chão. na hora não doeu tanto, mas agora... o pulso deve estar aberto, preciso consertar isso. naquela bruma confortável do despertar, quando nossa cabeça ainda não iniciou os ofícios de ruminar pensamentos, culpas e desejos, ela não sabia e sabia direitinho o que tinha provocado a queda. meu deus, quando isso ia acabar?! sentiu uma dor fina no peito, misto de constrangimento, arrependimento e consciência pesada. era um pouco culpa dela, com certeza. um dia teria que enfrentar o problema de frente. mas por ora queria era ficar ali, quentinha sob aquele edredom. engraçado, a neusa deve ter comprado amaciante novo, porque esse edredom está com cheiro de ‘flores do campo’ e não de ‘sol da manhã’, seu preferido. neusa era uma figura, tinha mania de comprar sempre os mesmos produtos, das mesmas marcas, com os mesmos aromas e tamanhos. quando acontecia de o fabricante renovar a embalagem ou o formato do produto, ou mesmo de acrescentar algum ingrediente revolucionário, neusa mudava imediatamente de produto, corria pro concorrente, só de birra. ficava uma semana sem falar no assunto, sentindo-se a mais traída das donas-de-casa. marcela tinha certeza, dentro de uns 10 minutos era neusa que entraria no quarto abrindo as cortinas e falando muito porque ela tinha chegado tarde, se isso era coisa que se fizesse com sua mãe, aquela santa mulher, que ela precisava tomar jeito e arrumar um emprego decente, que esse tal de leonardo não ia levar ninguém a lugar algum, que era isso e aquilo, mas que nenhuma mãe no mundo havia de querer aquele moleque pra genro. ah, o leonardo... era mais novo que marcela uns dez anos. conheceram-se no boliche. ocasião quase extraterrena pra marcela, que só gostava de freqüentar lugares em que a música era tão alta que não fosse preciso conversar. o fato é que leonardo era simpático, bonito e tão... diferente. ele era um pouco aquilo que ela gostaria de ser. então, se agarrou a ele, como se pudesse sofrer uma mutação, que nem camaleão. abandonou por um tempo o cigarro e passou a beber menos. boate só em raras ocasiões. seu cabelo melhorou, sua voz melhorou, sua vida estava mais tranqüila e isso era até gostoso. mas de manhã, quando acordava e ficava os seus cinco minutos pensando na vida, ouvia um tamborzinho tocando, lá no fundo, dando o recado: não adianta fugir de você. ela achava que sim, estava adiantando. que se corresse bem rápido, achasse um esconderijo seguro, ficaria por lá a vida inteira sem precisar se defrontar com nada desconfortável. mas um dia, contrariando sua teoria, marcela se viu quase surda com o barulho dos tambores. o esconderijo tinha sido descoberto. fim de caso. quando viu, estava na entrada do prédio de fábio, tocando o interfone. uma voz sonolenta atendeu do outro lado. marcela identificou-se. fábio ficou uns minutos em silêncio. a porta abriu, marcela entrou. subiu correndo as escadas, escorregou, caiu apoiada na mão direita. droga! os cabelos desalinhados, parou de frente pro espelho, respirou fundo. aquilo ia inchar, com certeza. antes de a campainha tocar, fábio abriu, vestindo calça de pijama e uma camisa velha, branca e azul. o cabelo mais comprido, barba por fazer. as pernas de marcela bambearam, ela buscava na cabeça alguma coisa inteligente pra dizer, que não parecesse tão ridícula, mas só conseguia sentir aquele perfume tão característico de fábio, que só ele no mundo inteiro podia ter. seria tão mais fácil se a vida fosse como nos programas de auditório, em que os produtores exibem plaquinhas com as palavras ‘aplauso’, ‘risadas’, ‘vaia’ e o público, satisfeito, sente-se seguro por saber o que fazer, por estar adequado às mais diversas situações. por fim, disse, meio sem jeito, ‘quanto tempo...’. fábio largou a maçaneta e segurou sua mão direita, justo a direita. o pulso doeu muito, mas marcela não estava mais levando isso em conta. e foi tudo muito rápido, confuso e intenso. ela bem que gostaria que fosse verdade, mas a lenda urbana propagada entusiasticamente em revistas para a mulher moderna de que ‘nessas horas não se pensa em nada’ não passava de história da carochinha. a mente de marcela estava mais para feijoada, um caldo bem tradicional e apimentado, onde bóiam fragmentos bastante asquerosos de uma existência animal. pensou em leonardo e o estômago embrulhou. escapou ligeira para o banheiro, vestindo o casaco e calçando a bota, desajeitada. o som dos tambores abafados quase completamente por uma única palavra, insistente, que ressoava na cabeça de marcela: cul-pa! cul-pa! cul-pa! bateu a porta e desceu a escadaria antes que fábio pudesse se dar conta. entrou no táxi, deu a direção de casa. culpa! cul-pa! tudo passava em câmera lenta pela janela do carro, em contraste com o pensamento de marcela, que viajava na velocidade da luz. e foi assim que ela viu, bem devagar, frame a frame, o caminhão do lixo se aproximando por aquela rua à esquerda. e, vejam só, uma epifania. o impacto, os estilhaços, o carro girando na pista, o poste, a buzina, o estrondo e nenhum som, nem tambores, nem palavras. abriu os olhos, assustada, a respiração suspensa, e a realidade foi como um segundo choque, um segundo desastre. a mão de leonardo encontrou a sua mão direita, já não doía tanto. olhando em seus olhos, sorriu triste e disse: não tenho boas notícias, amor.