30.3.05

Como Sartre pode mudar sua vida

**por paulo roberto pires, do no mínino

Não, ainda não foi escrito um manual de auto-ajuda com o título desta coluna. Mas a idéia não é de todo despropositada quando se vê a profusão de livros, revistas, exposição e até DVD lançados na França para comemorar os 100 anos de nascimento de Jean-Paul Sartre. Na prática, o que o filósofo escreveu e pensou acaba ficando em segundo plano diante da personagem grandiosa que construiu para si e para o mundo. Até nossa Chiquita Bacana foi existencialista porque só fazia o que seu coração mandava, resumo galhofeiro e preciso da revolução que, lentamente, irradiava-se dos cafés parisienses e, de uma forma ou de outra, acabaria mudando a vida de muita, muita gente. Palavra de ordem: ao indivíduo, toda a liberdade do mundo.

Com a grandiloqüência típica dos franceses em geral e dos intelectualizados em especial, a “Magazine Littéraire” intitulou seu número especial, dedicado ao autor de “A náusea”, de “Jean-Paul Sartre – A consciência de seu tempo”. São fotos e artigos mostrando um homem que parecia estar 24 horas por dia a serviço de grandes causas – por isso, aliás, E.M. Cioran, o romeno pessimista que é filósofo de cabeceira do Dapieve, chamava-o de “empresário das idéias”. Neste cipoal de política, filosofia e literatura, chama a atenção um dos textos mais curtos e simples, assinado por Catherine Clément, que dá conta da relação de Jean-Paul com Simone de Beauvoir. Naquele casamento – que não coube entre quatro paredes e nem mesmo na definição “casamento” – nunca Sartre foi tão Sartre. Mas nunca, também, ele revelou-se tão frágil e, como queria outro filósofo, demasiadamente humano.

Para Catherine Clément, a relação que os dois mantiveram por 56 anos é a obra “mais nova, mais rica em surpresas” que puderam criar em suas carreiras. Em 1924, ainda nos primeiros encontros, deram o mote para o que seria, contemporaneamente, um “relacionamento aberto”. O fizeram, no entanto, com desconcertante beleza, assumindo as diferenças entre o amor necessário – aquele o que os aproximou e os manteria cúmplices de uma vida – e os amores, no plural, contingentes – aqueles que freqüentariam, com intensidade e assiduidade diversas, suas camas. Separadas,é claro, como foram suas casas.

Sartre era heterossexual convicto. Simone, bissexual diletante. Eventualmente, uma mesma mulher era objeto de desejo de ambos. Ela chegou a chamar “meu marido” o escritor americano Nelson Algren; ele também teve uma longa paixão vinda dos Estados Unidos, Dolores. Ambos romperam com os perplexos amantes em nome da fidelidade, não ao outro, mas à separação entre necessário e contingente. A filosofia, aqui, não está nos livros, mas na vida, que deve ser reinventada radicalmente a cada momento, a cada ano de convivência.

O lugar-comum aponta os dois como o modelo do casal-cabeça. A prática, mostra Clément em seu artigo, pode ter feito deles tudo, menos um modelo. E muito menos ainda a caricatura de cérebros sem corpo, pois o sexo fazia, e muito, a diferença, assim como o álcool, as experiências com as drogas, os excessos em geral. Tudo isso embolado com a intensa troca de idéias, as viagens pelo mundo, os engajamentos políticos, a vida mundana do teatro, do jazz e do cinema. Ou seja, uma mistura com pouca probabilidade de se repetir. Atenção, não tentem repetir isso em casa!

E não tentem a mesma façanha porque este legado, que não foi escrito e tende a ser considerado superficial, anedótico, é o que foi menos digerido desde a morte dos dois – ele em 1980, ela seis anos mais tarde. Ao longo de suas vidas, o marxismo se complexificou, o feminismo obteve conquistas notáveis, os regimes autoritários tornaram-se mais raros, o neocolonialismo sofreu reveses importantes, ainda que insuficientes para sua extinção. Afetivamente, no entanto, vive-se um desolado conformismo, de diversas origens, que vão do terrorismo da Aids ao mais explícito conservadorismo. “Reinvenção”, definitivamente, é carta fora do baralho.

Nas emocionantes memórias de “A cerimônia do adeus”, em que relata os últimos e penosos anos de um Sartre doente e decadente, Simone lembra as últimas palavras dele, depois de pedir um beijo de despedida: “Eu te amo muito, meu pequeno Castor”. Uma declaração de amor que faz dela ainda mais fiel ao primeiro encontro, quando reflete, no ultimo parágrafo do livro, sobre tudo o que viveram: “Sua morte nos separa. Minha morte não nos reunirá. É assim; e já foi tão belo que nossas vidas tenham podido se combinar por tanto tempo”.

Na solenidade da efeméride em que se lembra o herói intelectual do século 20, as palavras de Simone de Beauvoir soam como um incômodo ruído de fundo. Elas falam da precariedade do humano e também, ou sobretudo, da liberdade que se ignora em nome dos discursos de liberdade. Mas que está, latente, como pura possibilidade.