1.3.05

pausa

quando chove

quando chove, sombrero fica cinza e mais feia que de costume. não que a cidade seja feia, ela tem estado nos últimos 10 anos. quando chove, canteiros, praças, jardins, chafarizes, ruas e casas se recolhem, nada dizem ao peregrino. quando chove em sombrero, a lama das encostas desce pra dar um alô e a gente da cidade, enfurecida pela alteração do cenário, faz que não vê. ninguém lava as calçadas, os carros ou os portões. de tão abandonada, a lama seca até morrer, sumir, voando poeira pelas ruas da cidade. por isso as tardes de sombrero, quando faz calor – quase o tempo todo – são secas e cor de tijolo. não há camisa, lenço ou sapato branco que resistam, tudo fica um pouco encardido. até as gentes.

e não existe lavanderia em sombrero, nem fast food, nem caixa 24 horas. em sombrero o tempo passa mais devagar e quase sempre isso significa tédio. a biblioteca pública é um prédio branco e vermelho, plantado no meio da avenida principal, todo ornamentado, fazendo graça pros turistas. é protagonista em fotografias mundo afora. mas é pra lá que voa metade da poeira vespertina de sombrero. ela se aloja entre os volumes. tem grão de pó que mora na coleção do veríssimo. outros dividem com uma família de traça um lugarzinho aconchegante em “grande sertão, veredas”. é um bom sítio, pois pouca apurrinhação traz a seus inquilinos. livre do movimento da cidade, quase nenhuma interferência humana. faxineira só a cada virada de ano.

as moças de sombrero são lindas, cabelos compridos ao vento. loiras, morenas, ruivas. novas, quase todas, muito novas. e tolas. mas também, aos 16 quem não é tolo? algumas provavelmente vão estudar, passar num vestibular fora da cidade, mudar, viver, voltar e achar tudo um pouco mais cinza, velho e empoeirado. mas ainda vão guardar uma relação estranha com aquele lugar, misto de saudade, nostalgia e pena. outras moças nunca sairão de lá. vão trabalhar, casar, constituir família – pois pra quem compra o tíquete de permanência, família é item quase obrigatório, espécie de passaporte para a ordem natural das coisas. um belo dia, levando as crianças para tomar sorvete, verão passar, num passeio descompromissado, uma daquelas amigas que se foi. a partir daí, muitas delas vão começar a perceber que quem fica acaba se tornando parte da paisagem. que sua vida está para a cidade como o álbum está para as figurinhas. aquelas que foram são as repetidas, as trocadas ou aquelas cujo envelope nunca foi aberto. pensar nelas como ‘figurinhas descartadas’ lhes trará mais conforto. e assim, mesmo com uma certa melancolia, elas varrerão a poeira para debaixo do tapete e prosseguirão seu caminho até a sorveteria, infinitamente, até o fim dos dias.

os rapazes de sombrero, bonitos, alegres e inconseqüentes. quase todos têm um encontro marcado com a morte. os que conseguirem passar dos 20, morrerão de tédio aos 40. ou de cirrose, já que em sombrero o censo conta mais bares que qualquer outro tipo de estabelecimento comercial. se salva quem pega um bonde para a maturidade, mas poucos têm essa sorte. porque o amadurecimento vem quase como um acidente em suas vidas. a morte de um familiar, uma doença gravíssima que se cura, uma revelação religiosa, um ataque psicótico, uma possessão. essas coisas capazes de mudar completamente a vida de alguém. esses não gostam de voltar a sombrero. o passado dói, revolve as feridas. preferem esquecê-la em alguma prateleira da memória e, quem sabe, voltar antes de morrer, pra uma visita de despedida.

em sombrero, só as crianças são felizes, faça sol ou chova. elas não ligam pra lama, não querem saber da poeira. só estão preocupadas com as jabuticabas, os jambos e as carambolas no quintal do vizinho. só pensam em pipas, bolas de gude, partidas de queimada no meio da rua, pula-carniça, amarelinha riscada na calçada com uma lasca de lajota, cozinhadinho, pique-esconde, passa-anel e pêra-uva-maçã. a única chateação é ir de vez em quando à farmácia tirar bicho-de-pé, pois, não adianta, chinelo é artigo de quinta necessidade. quando se é criança em sombrero o mundo cabe na quadra de casa e parece que um grande pintor tirou da sua paleta mais de um milhão de cores diferentes pra colocar nas árvores, nas frutas, nos brinquedos e nos amigos, deixando tudo brilhante, tinindo. pena que, com o tempo e a idade, essa aquarela vá se desbotando, desbotando, até virar um quadro lavado, com formas inexatas, cujo significado se lembra com algum esforço, muita saudade e quase nenhuma esperança.