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pedro
sentia-se cansado e pobre aquela tarde. pobre de dinheiro e de espírito. sentado no meio-fio, olhando praquela rua deserta, teve vontade de chorar. fazia tempo que não ligava pra casa, não tinha notícias de ninguém de sua família há pelo menos dez meses. e por puro desleixo. aquela preguiça grossa, espessa, viscosa estava mesmo impregnando tudo na sua vida. Não arrumava mais a casa, foi deixando que suas coisas se misturassem pelos cômodos, que a louça acumulasse na pia e a roupa suja transbordasse pelo cesto. dia desses achou o controle remoto da tv em cima do fogão. e noutro saiu pra comprar um saco de cuecas novas, daquelas bem vagabundas e baratas, só pra não precisar lavar. resolveu que cueca, até onde o dinheiro der, vai ser artigo descartável. mas naquela tarde de sábado, vazio e lento, ele se arrastou até o ponto de ônibus. Queria ver o mar. o dia estava miseravelmente quente. procurou uma sombra, sentou-se no meio-fio e ficou esperando o ônibus com ar-condicionado. ali, sozinho, triste e oco, sentiu pena de si mesmo. mas não chorou. fazia tempo que ele não sabia o que era isso. chorar pra quê? apesar da prostração, não perdera seu senso prático, mesmo que isso não deixasse de ser uma contradição. sempre procurava analisar as coisas, achar seus prós e contras e calcular o esforço. tinha sido assim desde criancinha. sua mãe apostava que ele seria um grande jurista, de toga e peruca, como nos filmes de tribunal. pedro sequer tinha concluído o segundo grau e a mãe desde há muito não tocava nesse assunto. ela, como a maioria, tinha desistido de pedro quando pedro desistiu do mundo. E o mundo também parecia ter deixado ele de lado: já não tinha emprego, palavra de amigo, namorada, bicho de estimação. nem os vizinhos vinham reclamar do som alto ou das cinzas de cigarro jogadas pela janela. Há meses não trocava mais que duas palavras com ninguém. geralmente, isso não fazia diferença. mas naquela tarde, não sei se era o sol quente, a rua vazia, o clima sufocante, mas pedro sentiu suas convicções doerem na carne, como uma fisgada. Perto dele, na sarjeta, um gato malhado de cinza e preto aproximava-se. As pernas arqueadas, o rabo suspenso, bem ao estilo desconfiado dos felinos. Pedro esticou a mão devagarinho, pra não assustar o bicho, até que encostou, de leve, no pelo quentinho. Tão vivo, tão vibrante, aquele bicho, que ele chegou a estremecer. Arisco, o gato partiu apressado. Então, depois de semanas, Pedro sorriu.

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