23.5.05

se se morre de amor

aldo segurava um barbante. enrolava pra lá e pra cá, sem prestar atenção. tinha encontrado o pedaço de linha no chão, perto do degrau onde resolveu sentar pra descansar. fazia sol, mas não estava muito quente. diz que naquele parque a temperatura é sempre um grau a menos que na cidade, lá embaixo. fazia sentido, ele pensava enquanto enrolava o barbante pra lá e pra cá. sua mãe é que gostava de linhas. ela bordava e costurava. enquanto estava caseando camisas ou fazendo ponto-cruz em toalhinhas, colocava aldo, molequinho, pra brincar por perto. era carrinho e linha pra todo o lado, a tarde toda. quando aldo deixou a casa para estudar em outra cidade, ela colocou, solícita, um pequeno kit costura na sua mochila, com linha branca e preta. é sempre útil, advertiu, experiente. alguns anos depois, quando aldo retornou à casa para a despedida, foi ao quarto da mãe e tomou como herança sua caixa de novelos. pensar na mãe lhe dava um certo sangue frio necessário àquela ocasião. era oportuno invocar a calma daquela mulher bordadeira, que passava horas em busca do avesso perfeito, irretocável. aldo reconhecia aquele momento como fundamental, era uma daquelas encruzilhadas sem meio termo. era preciso ser preciso, com perdão do trocadilho. cirurgicamente preciso, ele tinha consciência. de certa maneira, ele já tinha decidido. alguém tinha que morrer.