3.2.06

Brokeback Mountain

Contra a normalidade
BERNARDO CARVALHO

A julgar por "O Segredo de Brokeback Mountain" (que estréia nesta sexta-feira), as traduções dos títulos de filmes estrangeiros para o português continuam esmeradas. O filme de Ang Lee, vencedor do Globo de Ouro e forte candidato ao Oscar, chega ao Brasil depois de ter se transformado num fenômeno nos Estados Unidos.

Baseado num conto de Annie Proulx, "Brokeback Mountain" conta a relação amorosa entre dois caubóis americanos no início dos anos 60. O sucesso do filme (de público e de crítica) tornou-se tão mais significativo por se dar depois de Bush ter conquistado o segundo mandato com a ajuda dos eleitores mais conservadores, que se sentiram compelidos a manifestar nas urnas seu repúdio à legalização da união homossexual, uma das bandeiras democratas.

A naturalidade com que o público americano em massa (e não apenas as platéias mais civilizadas de Nova York e da Califórnia) agora recebe o filme de Lee contradiz a posição dos conservadores, razão a mais para os louvores exaltados da mídia menos provinciana.

Ainda assim, mais de um crítico precisou ressaltar o fato de que ali não era retratada uma história de amor gay, mas universal. No início de janeiro, o "New York Times" publicou um texto hilariante de Larry David, roteirista do seriado "Seinfeld" e protagonista do cult "Curb Your Enthusiasm", com o título "Os Caubóis São o Meu Fraco": "Para minha surpresa, tenho amigos heterossexuais que não apenas viram o filme mas gostaram dele. "Uma das melhores histórias de amor de todos os tempos", disse um deles, num arroubo. Outro foi além: "Meu Deus, você esquece completamente que são dois homens"." Com seu humor não propriamente fleumático, Larry David diz que prefere não assistir ao filme, por se considerar uma pessoa muito suscetível e influenciável.

Não vêm ao caso os motivos -sócio-econômicos, por exemplo- para a liberalização dos costumes e a progressiva assimilação do modo de vida gay à idéia de normalidade no capitalismo contemporâneo (os gays aparecem com freqüência no topo das pesquisas de mercado sobre consumo, viagens etc.). Mas um dos argumentos de Larry David para não assistir ao filme e não acabar se tornando ele mesmo gay é justamente de ordem comercial: "Não tenho resistência aos apelos de vendas".

É a normalidade e a integração tão almejadas pela sociedade americana que fazem de "Brokeback Mountain", para além de um belo filme, um caso social. O anseio pela normalidade e pela integração (ao Exército, à família, à igreja, ao mercado etc.) pode ser fundamental para a militância e para uma série de conquistas sociais das minorias antes estigmatizadas, mas não contribui com grande coisa para as artes.

As artes no Ocidente dependem desde o advento da modernidade de um desacordo e de um confronto com o que é visto como normal. O próprio "Brokeback Mountain" no fundo também depende da possibilidade de sobrevivência de um ponto de vista não-integrado, exterior à idéia de normalidade. A história de amor romântica depende da dimensão trágica, da impossibilidade, da singularidade. Não se trata apenas de um libelo militante e politicamente correto pelo direito à vida a dois e ao amor entre homens. Embora muita gente possa tê-lo entendido assim.

O conto de Annie Proulx termina com o eco de uma frase dita por um dos protagonistas: "Você tem que agüentar o que não pode consertar". É a frase central do livro. Para além dos limites da prática da militância, a frase extrapola o contexto para ganhar um sentido universal, retomando a palavra dos críticos. Ela fala de uma condição humana, insolúvel, trágica, que nenhuma integração ou assimilação vai resolver.

A condição gay, sem querer desmerecer a sua especificidade (porque é disso mesmo, de uma singularidade incontornável, que fala a frase), passa a ser metáfora de uma condição comum a todos. E o ato heróico é enfrentar (e acolher em si) o que não pode ser integrado, o que não cabe em lugar nenhum, o desconforto, o que não pode ser assimilado nem pacificado pela idéia gregária e confortável (para a maioria) de normalidade.

A frase é dita pela primeira vez durante um desentendimento amoroso entre os dois caubóis. Jack Twist diz que não pode viver, como o parceiro, de encontros eventuais, às escondidas, sente falta do sexo. E o outro, Ennis del Mar, casado e com duas filhas, responde desesperado que também não suporta deixá-lo pela manhã, "mas você tem que agüentar o que não pode consertar". E arremata: "Fico olhando as pessoas na rua. (...) Como é que elas fazem, porra?".

No caso específico, social e historicamente determinado, a solução para o problema de Ennis e Jack existe e é resultado de uma longa batalha liderada em grande parte pelos gays americanos, com conseqüências em todo o mundo. Mas "Brokeback Mountain" não é apenas a ilustração de um caso. "A gente podia ter levado uma puta vida de verdade, juntos. Você não quis, Ennis, por isso a única coisa que nos resta é Brokeback Mountain", retruca Jack Twist.

Brokeback Mountain é o lugar onde se encontraram pela primeira vez e onde continuam a se ver, em encontros eventuais, às escondidas. Quando já não puderem se encontrar, vai ser o lugar da memória. Mas é antes de tudo o lugar do irredutível e do inassimilável. Do que não é normal. É disso que são feitas as histórias de amor.