14.6.06

amélia

Hoje fiz uma coisa feia. Rasguei uma página da agenda dele. Vá lá, não é bem uma agenda. É um bloquinho de anotações, desses que a gente coloca na mesinha de telefone. Foi tudo muito rápido. Eu vi, estava lá aquele nome idiota. Na folha que arranquei. Eu bem que tentei controlar o impulso, mas não há molécula no meu corpo que não odeie esse nome, a pessoa que carrega esse nome, a idéia dessa pessoa existir na face do meu mundo. Foi ver aquilo grafado no bloquinho e não teve jeito. Olhei prum lado, olhei pro outro e tcham. Arrancado, amassado, jogado na lixeira mais imunda que encontrei, pra não correr o risco de ser resgatado.

Depois desse ataque de histeria fiquei me perguntando ‘o que estaria aquele nome fazendo ali, sem nenhuma outra referência’? Era apenas um nome afogando-se no vazio de uma página. Afogando-se ou flutuando... Eis a questão. Questão sem resposta, afinal, pois eu jamais teria a coragem de perguntar. Medo da resposta? Não, medo da contra-pergunta. Arriscado demais. Afinal de contas, descuidada, inconseqüente, também deixara aparentes algumas pistas dos meus pecados. E ele nunca perguntara nada.

Talvez nossos pecados, por equivalentes que fossem, estivessem perdoados. Ou equilibrados numa enorme balança metafórica, onipresente, cuja natureza delicada e instável não devêssemos perturbar. Talvez ambos pressentíssemos isso.

O nome no papel fazia cócegas na boca do estômago, dava falta de ar. Mas, comecei a perceber, devia ficar ali mesmo onde estava, na lixeira, esquecido. Apaguei a luz e deixei Amélia no escuro, descansando em paz junto aos meus fantasmas.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

quero comentar esse texto lindo, mas não consigo. quero mesmo.

10:54 PM

 

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