tropeça aqui, cai acolá...
já que me tornei uma velha preguiçosa, velharia escrita em dezembro de 2007.
bom 2010 procês.
:)
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eu tinha 20 contos no bolso e uma vontade louca de fugir. sentei no primeiro boteco daquela rua suja e podre. a mesa era podre também. imaginei que a cerveja ali fosse barata. pensei melhor e pedi uma cachaça. no copo pequeno, por favor. se tiver salinas, melhor. eu tinha desenvolvido uma técnica pra tomar cachaça, muito invejada entre as amigas e até propagada com um certo entusiasmo pelos amigos que queriam fazer suas mulheres caírem na pinga. tragava um pouquinho, jogava o líquido pro céu-da-boca e só então deixava ele escorrer pra garganta. de gole em gole eu ia secando o copo, tranquilamente.
mas ali, naquela atmosfera tão crua, achei a tal técnica um exagero, purpurina. não cabia no poema. então, olhei pro fundo do copo, aquela talagada cristalina que ondulava ao sabor da minha tremedeira, e mandei pra dentro. de uma vez só. bati o copo vazio na mesa de madeira e o vendeiro, de garrafa em punho ao meu lado, sabia de tudo. encheu novamente o copinho e se retirou em silêncio. no segundo trago eu já não estava mais tão corajosa. olhei e olhei pro copo, pra mesa da frente e seus dois ocupantes - uma mulher muito maquiada e um velho, que discutiam tropegamente algum assunto de extrema importância. achei graça na cena, não sei porquê. me distraí um segundo e deixei o copinho repousar na beira da mesa. a tremedeira afrouxava. o coração também. as lágrimas vieram com força até a fronteira com os cílios. antes do abismo, fizeram uma pausa. nesse tempo infinitesimal uma história inteira, com começo, meio e final triste, se desenrolou na minha mente.
poucos minutos separavam a cena do bar da outra, a decisiva. a poucos metros dali, algo morria. de morte definitiva, irremediável. daquelas que não admitem reencarnação. eu sabia. ele também. e saber nunca tornou nada menos complicado, eu entendia isso agora. ele tinha rasgado o contrato e sumido no mundo - não sem antes explicar timtim-por-timtim. ele abriu as veias e deixou o sangue jorrar. eu vi tudo. conheci todas as razões e não-razões. cada víscera daquele organismo bizarro formado pela junção do eu-com-ele e que agora se desintegrava em células irreconhecíveis.
ele fez a mala e bateu a porta. disse meia dúzia de clichês e saiu cuspindo algumas desculpas a seu favor. eu queria ter cuspido alguns marimbondos em minha defesa, mas só consegui tremer. e pegar aqueles 20 contos sobre a cômoda. saí no rastro dele, mas ele tinha pernas compridas e asas nos tornozelos, como só tem quem quer se perder no mundo por uns 300 anos. tudo o que consegui foi chegar ao bar do bairro vizinho. também andei depressa, porque cheguei antes das lágrimas. até com uma certa vantagem. mas agora era inevitável. elas tinham me alcançado. e eu chorei feito criancinha, abraçada à idéia de que aqueles 20 contos me levariam dali prum mundo melhor, montada numa reluzente garrafa de cristalina, salinas, pitu ou outra que as valesse.
o vendeiro passou por mim e alcançou a mesa da frente, a do casal, para entregar uma travessa de inox riscado repleta de alguma coisa gordurosa. eles ficaram felizes e eu, pela segunda vez, peguei carona na estranha cumplicidade que aqueles dois exalavam. esqueci de mim por uns 3 segundos e foi muito bom. dei uma golada sem perceber, no automático. só quando a cachaça queimou minha garganta me dei conta de que tinha esvaziado o segundo copo. pousei o copo na mesa e enxuguei a cara. vi meu reflexo nos vidros de um carro parado por perto. senti um vazio estranho, como se a imagem refletida não fosse eu. era meu eu habitando um corpo estranho, velho e maltratado. me encarei assim por uns bons minutos, pedi a terceira dose e coloquei parte da minha fortuna sobre a mesa. então, enquanto me levantava, cravei as unhas naquela pede estrangeira até rasgar. arranquei tudo, sem deixar vestígio. arranquei até o último centímetro de epiderme, como as cobras deixam pra trás a carcaça na hora da 'muda'. deixei tudo ali amontoado junto ao copo de cachaça vazio. e nunca mais retornei ao bar.
noutro dia, estava andando pela beira-mar e vi novamente a mulher muito maquiada e o velho. andavam de mãos dadas e conversavam muito. olhei bem nos olhos deles. eles não me reconheceram. fiquei feliz e segui.

1 Comments:
e beijinho doce, tomou não?
2:22 PM
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